sexta-feira, maio 06, 2011

Saudade

Sabes,
Não há muito tempo disse-te o que sentia, ou pelo menos o que pensava que sentia, um conjunto de pensamentos, baseados em actos e emoções baseados naquilo que foi um passado que vou querer recordar. Por mais que queira, tu não paras de me assombrar, continuo a pensar em ti, não tanto nem com tanta intensidade como há uns meses, mas com um misto de carinho, mágoa e saudade. Apesar de nunca me teres feito sentir mal, e que regrasses grande parte da tua vida para me fazer feliz todos os dias, e em todos os segundos desse dia, nunca me senti o suficiente para ti sabendo que a culpa disso acontecer sempre será minha e nunca tua, por nunca te ter dado o devido valor.
Ao leres esta carta, se leres, sei que não vais gostar, mas vou recordar sempre do que deixaste em mim. Deixaste marcas indeléveis, não rasgadas, antes trabalhadas com o mais fino recorte no meu coração, e como todos os grandes artesãos, soubeste trabalhar o meu coração para que eu pudesse gostar ao máximo de ti. Lembro-me de ti e das tuas mãos frágeis, mas bonitas, que apertavam as minhas com a força dos mares, e que apesar da diferença corporal pareciam que encaixavam simetricamente nas minhas. Lembro-me do teu sorriso, que hoje vejo sendo um feixe de luz surreal, ligeiramente a inclinar-se para um dos cantos da tua boca, sabendo que em seguida viria um ponto de luz nos teus olhos em forma de floco de neve que brilhava sempre que te via comigo. Nunca lhes dei o devido valor, às mãos e aos olhos, mas hoje reconheço-os como sendo carimbo lacrado do amor que sentias por mim.
Hoje se calhar lês o texto, e dás-me exactamente o que é necessário para mim: uma dose enorme de realismo e pragmatismo, tu vai ignorar, se pudesses dirias para seguir em frente, que o tempo de gostar de ti já acabou. E que não é bonito eu sujeitar-me a isto, a esta saudade crua que encontro na escrita, para demonstrar os pedaços de ti que ainda ficaram em mim.
Não quero que voltes para mim, não era justo, como nem sequer era minimamente justo eu pedir-te para seres parte da minha vida, depois de nós termos tido um fim. Só quero que saibas que não te esqueci, que te sinto em mim, e que na cidade do Fado Saudade escreve-se com letra grande. *

quinta-feira, maio 05, 2011

New dawn, nem day.

Hoje foi diferente, não o sabia quando acordei, deviam ser umas onze (?). Não me sentia diferente, todos os meus membros e todas as articulações se sentiam iguais, o meu cérebro continuava lento como é seu costume de manhã, e só me apetecia dormir.
Mas hoje houve algo diferente, a tarde cheirou-me a mudança, senti que algo diferente começou a tomar conta de mim de uma forma não muito forte, mas lenta e suave como um bom pedaço de madeira ao lume. Dizes-me hoje que o teu futuro mudou, que já não me sentes, sentes outras coisas, por outras pessoas, e que eu já não o sou a pessoa que mais desejas ver há já alguns meses, e pela primeira vez essa possibilidade não rebateu em mim muitas vezes, não senti necessidade de apagar as luzes, não senti necessidade de fechar a porta à chave, não precisei de ligar o meu iPod, não precisei de rodar para encontrar T.B.A.H., não precisei de me enfiar debaixo dos meus lençóis quentes, não precisei de me agarrar à minha almofada, não necessitei de me meter no passo final, o de chorar e de lamentar e bradar aos céus os males que cometi que me levaram a ficar sem ti.
Hoje foi diferente, recebi a sms e sorri. Pensei, e voltei a sorrir. E respondi, "Tudo o que quis foi desejar que fosses feliz.". E apesar de possivelmente não teres acreditado nem no mais pequeno cheirinho dessa frase, gostava que me ouvisses a dizê-lo, foi muito natural e uma reacção típica de algo que se solta, do filho que sai de casa dos pais, ou de um rapaz que se tornou homem.
E agora sim, chegou a altura de embalar numa caixa tudo o que me fazia deprimir, e onde tu estavas tão presente, chegou a hora de finalmente sorrir de formam pura, como se não houvessem problemas. Os cadernos com textos nossos, a moldura, os bilhetes, os origamis, a t-shirt, todos os textos avulsos que se encontram cá em casa, as estrelas e a caixa azul também vão para embalar. Vou esconder bem fundo no meu pc tudo aquilo a que já não tenho necessidade de me agarrar, as nossas fotos, e algumas das músicas/cds que me fizeste conhecer, porque existem ainda músicas que apesar de as termos conhecido juntos ou de mas teres mostrado, ao longo do tempo foram-se definindo também como minhas.
Sei que provavelmente nunca mais nos vamos encontrar, pelo menos propositadamente, que seremos para sempre uma parte de outras equações, e que o que ficou em nós e na nossa relação é dor e ressentimento, talvez pela intensidade do que sentíamos. Sê feliz. Honestamente e sinceramente, espero mesmo que o sejas, e se os nossos caminhos nunca mais se encontrarem Goodbye. and Goodluck.
E hoje sinto-me bem, como não me sentia há muito tempo, afinal...


"It's a new dawn, it's a new day".

quarta-feira, maio 04, 2011

"Para sempre"

O "para sempre" está sobrevalorizado.
E hoje já não tem certamente o mesmo valor que teria há duas ou três décadas atrás, lembro-me que quando abracei alguém pela primeira vez escondido debaixo das varandas e entre as garagens lá de baixo pensei para mim, é isto que quero "para sempre". Mas não foi, aliás, ás vezes pergunto-me se ainda existem amores daqueles de contos de fadas, sem pessoas com defeitos, ou então pessoas cujo único defeito, parece ser amar demais.
Já não há "para sempre's" como os dos nossos pais, e dos nossos avós, que ficam anos, décadas a fio juntos, conhecendo a face do cônjuge, todas as suas expressões , saber fazer essa pessoa sorrir, chorar de alegria, conversar com ela e resolverem todos os problemas juntos, como o meteorologista que conhece todo o processo que leva à subida e à descida de temperatura, que sabe todos os processos anexos à boa disposição.
Já não há "para sempre's" pelo menos para agora, esgotaram-se, não consigo dizer que te amarei para sempre. Não consigo dizer que pensarei só em ti para sempre, não consigo dizer que pensarei em ti como musa da minha música "para sempre", não consigo dizer mais nada sobre ti "para sempre", porque te tornaste algo superior a mim, não precisas de mim para viver a tua vida, não precisas de mim para ser feliz, não precisas de mim para seres tu. Há algo no arrependimento que faz com que seja triste viver, não quero ser uma daquelas pessoas que vive com pena de si mesma por não ter aproveitado para ser feliz "para sempre" com alguém.
Vou ser alguém que descobre que "para sempre" é uma expressão singular, e que pode ser usada em mais do que uma pessoa, e que como a idade vai tratando de afirmar, "para sempre" nunca passará de um promessa vã.

terça-feira, maio 03, 2011

Dois mundos separados

Ficou a pensar para a eternidade.
Um pensamento não oscilante, em vez disso, algo frio e cortante. Um pensamento que lhe varria os sonhos e os desejos, que o fazia lembrar do passado. Ele ainda hoje não sabe o que lhe chamar, pelas suas qualidades gostava de chamar-lhe a deusa, pela sua fragilidade queria chamar-lhe flor, pelo amor que sentia por ela era coração. Tudo o que ele queria era pagar os montes e as escarpas, extinguir os rios e as pontes, cortar estradas e inventar estradas novas, que o aproximassem e que fizesse com que fosse mais rápido chegar à sua beira.
Hoje não sabe se a ama, não se sabe se gosta dela. Afastaram-se como se o tempo juntos não fosse bom o suficiente, ela era artista, fazia desenhos com os sonhos, ele era pragmático, queria o presente e o futuro encaixilhados como um mapa, que tinha de ser seguido totalmente à risca para o levar ao que ele desejava, a felicidade eterna. Ele era muito mais velho que ela, viviam em diferentes gerações, ela era do email e ele das cartas com cheiro no envelope, mas compreendiam-se, respeitavam-se e viviam muito do amor que sentiam um pelo outro.
Ela hoje quer continuar sozinha, a descobrir o mundo através dos seus olhos de artista, captando todos os simples momentos que ficam intrínsecos a nós, e que nem sempre damos o devido valor.
Ele pragmático continua a viver o presente, mas agora sem pensar no futuro, porque ele sabe que o futuro esperará sempre por ele, nem que em ultima instância ele viva fechado sobre si eenclausurado na prisão mental que vivia antes dela. Ele vive mais como um artista agora, com planos traçados, mas aproveitando todas as brisas leves que lhe amaciam a face.

segunda-feira, maio 02, 2011

Mundo nas minhas mãos.

Toda a gente já os teve.
O momento máximo da nossa curta existência, mais do que um, quantos mais melhor e melhor sinal será. Falo daqueles momentos em que julgamos ter o mundo nas nossas mãos, em que a Terra não passa de um daqueles globos que abanamos e onde a neve se espalha, onde tudo parece que está ao nosso alcance, ou melhor, tudo é atingível e nada intangível. Momentos em que nos sentimos tomados por uma sensação tão forte de auto-confiança, em que o mundo não nos deita abaixo, por muitos momentos horríveis que possam aparecer pelo caminho. Daquele momentos em que todo o que somos está em perfeita harmonia, onde o nosso karma está mais do que uniformizado, está ligado de tal maneira ao centro que tudo o que fazemos parece bom. Não quero falar de momentos perfeitos e curtos, quero falar de momentos muito bons e de duração longa.
Os curtos são bons, são segundos onde podemos contar uma vida, e são aqueles para os quais vivemos basicamente a vida, seja um beijo, um abraço, um poema, uma canção, uma interpretação ou um outro qualquer momento de génio.
Os longos são bons no instante, na altura em que o vivemos, são semanas ou meses, em que nos julgamos não intocáveis, mas talvez semi-deuses com condição humana, capazes do divino e do sobre-humano apesar da figura física. São momentos de intensa auto-confiança; e felicidade extrema, daquela em que pairamos um pouquinho acima das nuvens; são momentos em que o nosso coração está aberto, encarnado e brilhante, sorridente e puro; momentos em que o nosso "génio" se expande, e toda a nossa criatividade e talento se expandem. Apesar de muito bons, estes nunca são perfeitos, apenas são perfeitos quando são no presente. Já os vivenciei, no final do secundário, onde tudo o que fazia a nível musical tinha melhor qualidade, e onde me sentia mesmo bem a fazer música, ao meu melhor nível, pessoalmente também estava muito bem, mas o importante neste caso é mesmo a música. O outro período desde há dois anos e muito, até há 6 meses atrás, nunca me sentira tão bem, a nível sentimental, sentia-me mesmo noutro mundo.
Hoje, tento por o caminho da vida sentimental em segundo plano, e tentar relançar e vivenciar a minha melhor música todos os dias, e fazer com que acima de tudo, eu me sinta satisfeito por fazer música, por atingir cada vez mais o que eu idealizo como sendo o caminho para a plenitude musical, o esteticamente belo na música em geral, no trombone em particular.

domingo, maio 01, 2011

Tu, que povoas o meu coração

Tu, que povoas o meu coração,

Não sei como haveria de começar a escrever aqui. Já não me posso chamar de "meu amor", não seria justo para ti, nem seria justo comigo mesmo, não que não te ame, porque amo, mas porque perdi todo o direito que tinha de dizer que de alguma forma eras minha. Não te queria chamar querida, porque na realidade é demasiado banal. Não te queria chamar pelo nome, porque esse só deve ser usado por quem queres que o use. Então começo contigo, tu que povoas o meu coração, porque te sinto hoje duma forma assoberbada, assombradamente cheia de calor e carinho, porque não consigo deixar de pensar em ti, e porque te vejo em todo o reflexo do que faço.
Não sei como me sentes hoje em dia, não sei sequer se mereço ser sentido por ti. Se mereço sequer um segundo dos teus sentimentos e um segundo dos teus pensamentos. Não há um dia em que não me martirize sobre tudo o que aconteceu connosco neste último ano, e já agora durante todo o tempo que partilhamos enquanto seres apaixonados e envolvidos numa mesma relação de partilha total e abertura.
Olho para os casais que passam por mim enquanto completo o meu dia sozinho, passam por mim vindos de todos os lados, desde o Eléctrico 18 da Ajuda, no Cais de Belém, junto à Ponte 25 de Abril, tomando café juntos enquanto suavemente passam a mão pela cara um do outro, apreciando o amor em doses grandes de emoção e sentimento de estarem completos e não sentindo nenhum vazio gigantesco do tamanho das crateras do Vulcão de Sumatra. E penso no quanto de nós podia estar representado em cada um desses casais, e isso deixa-me mais triste, porque sei que eu e tu tínhamos muito mais potencial que os outros todos juntos, tínhamos amor, paixão e interesses intelectuais acima de qualquer um deles.
Sei hoje que nenhuma mulher à minha volta é capaz de me dar tanta vida como tu me davas, nenhuma delas me parece interessante, acho-as cinzentas como acho cinzento o tempo em Outubro, não são cores garridas e vivas que me fazem querer sorrir. Não tenho o mínimo interesse em querer saber quantas mulheres giram à volta do mundo, isso não mais é importante, depois de ter tido o melhor a que podia aspirar, não me posso contentar com muito menos. Daí preferir ficar a idolatrar a pessoa que és sozinho, do que encontrar alguém que nem sequer consigo gostar.
Hoje, e desde há algum tempo sei que o nosso nome não ficará imortalizado nem por Dali nem por Kandinsky em quadros vibrantes e brilhantes, de cores quentes e carinhosas que pintam a nossa imaginação de orgulho e duma sensação de bem-estar inigualável. Arrependo-me dos milhões de erros que cometi, sei que não tenho desculpa, que essas se acabaram há muito tempo, no dia em que deixei de poder errar, e no dia em que cometi o erro gravíssimo em nós.
Acabaram-se os fins-de-semana bonitos.
Acabou-se a minha ânsia de vencer as centenas de km que nos separavam mas que eram sempre vencidos ao primeiro beijo.
Acabou-se o chá das 5h, tomado no sítio do costume, envolto em olhares de admiração e ternura.
Acabou-se o regozijo com que dizia à família que tinha alguém, que na verdade não era alguém, eras Tu, Tu que mereces uma admiração grande agora que não estamos juntos, visto que reconheço os erros que cometi, e o que durante algum tempo sofreste comigo.
Não há mais sorrisos perfeitos, nem olhares lânguidos.
Não há cumes que se vencem com a simplicidade de duas mãos juntas.
Não há mais Lisboa e Porto juntos no mesma sombra de árvore.
Não há mais nada, só o meu pensamento em ti, e o teu pensamento cada vez mais longe de mim.
Acabou-se agora o conto de fadas em papel velho.
Eu fico aqui do meu lado do rio, e tu ficas do teu lado do rio.
Sinto-te em mim, como se nunca tivesses saído do meu lado.
Mas deixo-te sem mim, onde ficas feliz e mais completa.
Sempre teu. Sempre.

P.

terça-feira, abril 19, 2011